Oh my god, she’s back again.

Sim, sim, sim salabim!  Para aqueles que sentiram saudades (e para os que não sentiram também) estou de volta no blog, após um longo e tenebroso inverno, e com uma coluna nova.

A idéia não é nova. Começou no meu primeiro blog, que tinha o mesmo nome dessa coluna (e de uma música do Led Zeppelin) e o objetivo principal era, basicamente, dar vazão ao furôr acadêmico que me pegou lá no quarto período da faculdade e não me largou mais. Hoje, dois anos depois, estou escrevendo minha monografia e correndo com o projeto para o mestrado que pretendo tentar no fim do ano. Moleza, né?! Por isso meu quarto tem livros pra todos os lados e eu passo os dias pensando em conceitos de teoria da comunicação. Logo, vou dar vazão aqui a tudo o que tem ocupado minha cabeça e não tem espaço nos meus papers. Estejam avisados.

Bem-vindos a cultura da convergência.

Palma, palma, não priemos cânico. Não vou ficar vomitando um monte de erudições aqui. Pelo contrário. O objetivo é mostrar que há muito mais cultura pop na academia hoje em dia do que os “trouxas” imaginam. Pra começar estou lendo o último livro de Henry Jenkins (pesquisador, ex-professor do Departamento de Estudos de Mídia do MIT, autor de livros sobre fãs e cultura pop e, por último mas não menos importante, trekker convicto – a.k.a este senhor simpático na foto ao lado). Em Cultura da Convergência Jenkins trata de algo extremamente presente nas nossas vidas: narrativas transmídia, ARGs, reality shows, celulares que servem para tudo inclusive fazer ligações.

Porque os fãs de Lost não sairão satisfeitos?

Um dos primeiros conceitos apresentados neste livro é o de comunidade de conhecimento, desenvolvido a partir da idéia de inteligência coletiva de Pierre Lévy. Se você é fã de Lost (ou qualquer outro objeto com as mesmas características transmídia e narrativas), daqueles que captura frames, desenha mapas, pesquisa bibliografia relacionada, tenta desvendar códigos e easter eggs ou simplesmente tenta contribuir com as discussões utilizando seu conhecimento, especializado ou não, tendo a legitmidade de um diploma ou não, sorria: você faz parte de uma comunidade de conhecimento.

No nosso caso (e eu, mesmo não participando tão ativamente quanto gostaria, me considero parte dessa comunidade de conhecimento) a dinâmica tem acontecido basicamente no ambiente online. A massificação da internet potencializou e muito a dinâmica entre os fãs e a série mas esse processo não é novo. O próprio Jenkins cita o caso Twin Peaks, série de TV norte-americana criada por David Lynch no início dos anos 90 e exibida (vejam só) pela rede ABC. Os mistérios e enigmas presentes na série (cujo mote principal era ”quem matou Lara Palmer”?) movimentimentaram fãs em todo o país e também fora dos Estados Unidos. Logo após a exibição do episódio piloto já começavam a surgir as primeiras comunidades online dedicadas à série. Segundo Jenkins:

Os fãs trabalhavam juntos para criar tabelas e gráficos com todos os acontecimentos da série ou compilações de trechos importantes de diálogos; compartilhavam o que conseguiam encontrar sobre a série em jornais locais; usavam a internet para localizar fitas de vídeo, caso perdessem episódios; investigavam a complexa grade de referências a outros filmes, séries de televisão, músicas, romances e outros textos populares, medindo forças e perspicácia com aquele que consideravam um autor trapaceiro, sempre tentando despistá-los.

Parece com alguma outra série que a gente conheça?

Quero chamar atenção aqui para o que eu acredito ser o aspecto principal das comunidades de conhecimento: o fato de se tratar, em certa medida, de uma competição. Por mais que os membros da comunidade trabalhem em equipe, existe uma frequente disputa dos fãs entre si (quem sabe mais sobre a série, quem possui mais conhecimento aplicável na solução dos enígmas, quem elabora as melhores teorias) e, principalmente, entre os fãs e o autor (David Lynch, no caso de Twin Peaks, Damon Lindelolf e Carlton Cuse, no caso de Lost). O que move a comunidade de conhecimento é a idéia de que existe alguem lá fora que possui um conhecimento que nos é negado, e por isso nós precisamos descobrir, mostrar que somos capazes de chegar às respostas “sozinhos”.

Apesar de fascinante, essa dinâmica tem alguns “probleminhas”. Pra começar, nós (fãs) não somos donos da série (por mais que a gente queira e por mais que a gente tenha certeza de que ela seria muito melhor se nós a escrevêssemos). Os produtores e os roteiristas são os donos da bola. Eles decidem quando, como e onde vamos jogar. Por sorte o jogo que eles nos têm proposto é divertido o suficiente pra nos mantêr nele por seis anos e com a corda toda. Daí surge um outro problema: e quando a coisa sai do controle – e ela quase sempre sai?

Para além do fato de Lost ter se tornado um divisor de águas da narrativa seriada, está mais do que claro que a série é agora maior do que qualquer um poderia prever. A mitologia da série se expandiu em nossas mentes, criamos métodos de análise e teorias complexas demais para qualquer um acompanhar e isso inclui os próprios autores. Por mais que eles tenham criado a trama e, certamente, tem respostas que nós não podemos ter, os fãs sempre estarão mil anos à frente. De volta a Twin Peaks:

A capacidade da comunidade de unir recursos coletivos trazia novas exigências para a série que nenhuma produção televisiva na época teria sido capaz de satisfazer. Para se manterem entretidos, começaram a criar teorias de conspiração e explicações mais interessantes, pois tinham muito mais profundidade do que qualquer coisa que pudesse ir ao ar. No fim, sentiram-se traídos, porque Lynch não conseguiu se manter um passo adiante deles. Esse deveria ter sido nosso primeiro sinal de que haveria uma tensão à frente entre produtores e consumidores de mídia.

Durante seis anos Lost movimentou nossas discussões e explodiu nossas cabeças. A menos de uma semana do fim da série os fãs se dividem entre os que confiam e os que não confiam em um final satisfatório, sendo que o segundo grupo é consideravelmente maior que o primeiro. Quanto a mim, estou preparando o espírito para a viagem que está chegando ao fim, tendo curtido cada segundo. Tenho certeza de que, por mais que alguns se decepcionem com o final, o que a meu ver é praticamente inevitável, com o tempo todos se darão conta de que participamos de um momento único na história do entretenimento audiovisual.